Madrugada insone

03:24, e enquanto a maioria dorme, meu corpo deve estar em outro fuso horário, num jet lag doido que vai me deixar caindo de sono amanhã, no caso, hoje. A minha mente é um caos e no meio dessa bagunça toda, me perdi nos meus devaneios e me encontrei pensando em quantas pessoas já passaram pela minha vida nessas três décadas – um ciclo natural. E nesses encontros e desencontros da vida, pessoas vêm, pessoas vão. E cada pessoa que passa pela minha vida, leva um pouco de mim e deixa um pouco de si. Às vezes sãos coisas boas, às vezes não, e tudo bem. Faz parte da vida. Acho que foi Nietzsche quem disse que o que não mata, fortalece. A gente demora pra entender na hora, mas depois a ficha cai. E aí que a gente faz como em O Menestrel, planta um jardim e decora a alma, porque é isso que se deve fazer, não é? Mas não era bem isso que eu queria falar – tá vendo só? Já me perdi na minha bagunça mental – na verdade, eu não sabia o que queria dizer, apenas queria escrever, e as palavras foram saindo, o que é bom, quem sabe assim a mente esvazia e eu finalmente consiga dormir. Mas toda essa conversa aleatória me fez pensar nas poucas amigas que tenho e que quero que continuem comigo, se possível, até ficarmos velhinhas e fazermos coisas de velhinhas, tipo sentar na cadeira de balanço fazendo tricô enquanto lembra da juventude, ou sentar no chão da sala comendo besteira e falando bobagem e rindo pro vento, ou ainda caminhar no parque tomando sorvete e filosofando sobre a vida. Porque é isso que velhinhas fazem, não é?
Entre chegadas e partidas, há quem decida ficar.

Amanhã, no caso, hoje, vou precisar de doses extras de café.

Era tarde de sol…

…ela abriu a janela para que a luz entrasse e aquecesse o quarto como aquecia a sua alma. Ainda faltavam duas horas para anoitecer e ela aproveitaria para começar a ler o livro novo. Recostou-se na cama ainda bagunçada depois de uma noite mal dormida, pegou o livro na mesa de cabeceira e começou a ler. Como gostava desses momentos de solitude em que suas únicas companhias eram o livro, uma xícara de café e o gato roçando o seu pé, um pedido de atenção nenhum pouco sutil. Não conseguia se concentrar na leitura, as vozes que vinham da casa de trás eram muito altas e assim como a luz do sol, irrompiam na janela aberta. Largou o livro, pegou o celular, pôs os fones e deu play na música, uma mensagem apitou e as palavras que leu não eram agradáveis como aquela sensação de aconchego que sentia minutos antes e que agora era tomada por um inevitável pesar. A mensagem era de uma colega dos tempos de escola e trazia a notícia da morte de um ente querido, cuja vida não chegou a completar um ano. Nos ouvidos, uma música instrumental cujas notas eram delicadas e melancólicas, quase um cortejo fúnebre àquele clima lúgubre que se instalou ali. Como a vida é tão curta para algumas pessoas, pensou. Aquilo lhe parecia injusto, por mais que soubesse que a vida é um sopro. No silêncio que agora reinava, observou o feixe de luz sobre a cama desarrumada e ouviu o vento balançar as folhas da pequena árvore que repousava lá fora. Levantou-se, foi até à janela, contemplou o céu coberto de nuvens que pareciam algodões-doces – algodão-doce lembrava a sua infância – e ali, naquele instante sereno, fechou os olhos e sentiu o vento acariciar o seu rosto, grata pelo dom da vida.

Divagações

Quinta-feira, 1 de Setembro de 2016

Muito tempo passou desde que você partiu e me dei conta de que as lembranças estão cada vez mais turvas. Nunca tive uma boa memória, mas não imaginei que o tempo varreria os seus vestígios me deixando apenas alguns fragmentos de memórias e algumas fotografias guardadas no fundo da gaveta. Ainda lembro o som da sua risada, mas sinto-a cada vez mais longe e receio um dia não mais alcançá-la. O seu cheiro se esvaiu da minha mente e por mais que eu procure, ele se perdeu em meio a tantos outros cheiros. Eu me esforço pra não esquecer aquele último abraço que te dei na porta de casa, na volta do cinema, uma noite antes de você partir pra sempre. O tempo é cruel e não se importa em apagar lentamente aquilo que um dia foi tão vivo e palpável. Dias atrás, encontrei algumas fotos suas perdidas entre as minhas, e involuntariamente sorri. Então entendi, o tempo pode passar, a memória pode falhar, mas o amor não morre, ele tá lá, quietinho, guardadinho num cantinho especial do coração. Você levou uma parte de mim e me deixou um pedaço seu, e não há como desfazer essa troca. Você faz parte de quem eu sou. E isso é a coisa mais linda que você me deixou.

Metamorfose ambulante

É interessante olhar pra trás e perceber o quanto mudamos. Fiz uma autoanálise e fiquei feliz em constatar o quanto – ao longo dos anos – melhorei como pessoa. Abri minha mente pra novas ideias, e pensamentos formados e consolidados, mudaram. O que era certeza, hoje, é dúvida; o que era dúvida, hoje, é certeza. E amanhã pode não ser mais. O mundo está em movimento, e a gente também. Mudar faz parte do processo de amadurecimento. Aliás, às vezes a gente reclama que tá envelhecendo, mas a maturidade não tem preço. A não ser que eu pudesse ser a Líley do corpo de 20 com a mente da Líley de 30, eu não me trocaria por ela.

A vida é um aprendizado constante, e ao longo da nossa existência passamos por várias mutações. O espelho revela as mudanças externas, mas a mudança mais importante não está no reflexo no espelho, ela ocorre de dentro pra fora. Hoje já não somos mais os mesmos de ontem. E sabe o que é mais interessante? É que nunca ficaremos prontos, sempre haverá o que mudar. Somos projetos inacabados em constante evolução. Ou como um sistema operacional que sofre contínuas atualizações. Meu sistema atual, por exemplo, está defasado em relação a outros mais avançados. Não sou perfeita e nunca serei, mas posso dizer que hoje sou melhor do que fui ontem, e amanhã quero ser melhor do que sou hoje. Ainda tenho muito a aprender, como eu disse, não sou um projeto finalizado, tô mais pra esboço, uns ajustes aqui, outros acolá, e assim as alterações vão acontecendo e eu vou me tornando uma versão melhor de mim mesma. Não sou pokémon, mas meu objetivo é evoluir.

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Como diz a letra da música:  “…eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo…”

A vista da janela

No apartamento 204 – onde morava dois meses atrás – todo fim de tarde a varanda era banhada de luz dourada que invadia a sala. Eu amava essa hora do dia, era o meu momento de paz. Era o único instante que o barulho da minha mente era silenciado pelo precioso momento de contemplação do pôr do sol. Amo assistir ao pôr do sol, me dá uma sensação de gratidão, de calma interior. No entardecer, a casa onde moro atualmente, também é invadida por essa luz dourada que aquece meu coração, mas sinto falta da vista. A casa é cercada por muros e quando olho pela janela só vejo concreto, exceto pela enorme janela na sala que me permite ver um pedacinho do céu. É pra lá que eu vou sempre que vejo um rastro de luz dourada.

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Se você ficar sozinho, pega a solidão e dança

Acho essa frase do título tão bonitinha e cheia de significado. Sempre que esbarro com ela, me faz lembrar de algo que escrevi um tempo atrás: “a solitude não é triste, é poética. Não significa ser sozinho, mas estar sozinho num encontro consigo mesmo. É silêncio que faz ouvir a alma. É sentir-se pleno de vida e não ter necessidade de ninguém”.

Se você não amar a própria companhia, como poderá amar a companhia de outra pessoa? Aproveita a solidão para se conhecer e amar a si mesmo para ser amado. Antes de ser feliz com alguém, seja feliz sozinho.

Então, se você ficar sozinho, dá play no vídeo da música que inspirou este post e chama a solidão pra dançar.

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Hoje é dia de faxina

Não da casa terrena, hoje é dia de limpar a casa emocional. Lavar as impurezas que se acumularam ao longo da vida; desfazer-se dos entulhos das mágoas; tirar do fundo das gavetas lembranças tristes; selecionar e guardar o que é bom e jogar fora o que não presta; desapegar-se do passado e esvaziar o coração, renovar a mente e recomeçar; cuidar do universo interno para não putrificar; perfumar a casa, decorar a alma, para receber o novo.
Hoje é dia de faxina.

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